
A meu ver, um bom documentário é aquele que usa o objeto real documentado como um "McGuffin" para contar boas histórias e iniciar reflexões mais profundas sobre o mundo em que vivemos. É exatamente o que faz "Alô, Alô, Terezinha".
Mesmo hoje em dia, é difícil entender o anárquico, caótico, escrachado e carnavalesco pernambucano Abelardo Barbosa. No filme de Nelson Hoineff, quem se sai melhor na tarefa é Alceu Valença: Chacrinha foi o cara que levou a figura do "velho" do pastoril profano à televisão.
Apoiado no tradicional formato imagens de arquivo + depoimentos, o filme tem como maior mérito seguir a linha mestra do Velho Guerreiro: mandar o politicamente correto às favas e entrar de cabeça nos detalhes "picantes" da biografia do comunicador.
No desenrolar da produção, fica fácil entender que Chacrinha se torna o centro de temas como os limites do grotesco e da sexualidade na indústria cultural; a obsessão dos anônimos de pular para o sucesso; e as diferenças de Zeitgeist (espírito da época) entre os estranhos anos 80 e a asséptica década atual.
Não incomoda no filme a nudez de Índia Potira, ou a evidente "plastificação" dos artistas que mantém a mesma cara há mais de 20 anos, enquanto as pobres chacretes não resistiram ao tempo. Incomoda mais o pieguismo do diretor ao pedir para todo mundo cantar à capela, ou chorar por alguns segundos para a câmera.
Ou pior, constatar que tudo isso é mero calhau, pois as imagens de Chacrinha em ação são muito poucas e muito ruins - fruto do descaso das emissoras com seu próprio acervo. Que por sua vez, vem do desleixo dos brasileiros com sua própria história. Independente disso, o filme merece ser visto e revisto pelo mérito que é reativar, por uma hora e meia, uma época em que a TV e a sociedade eram menos pretensiosas.
Curiosidade: na sessão que fui, no metrô Santa Cecília (SP), tivemos a presença ilustre na plateia de ninguém menos que Rita Cadillac.
2 comentários:
Pediu um beijo na bunda dela?
Augusto.
A patroa até sugeriu essa foto, só de onda. Mas não.
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