
Segunda parte da série de posts sobre a morcega. Agora vamos analisar calculadamente um dos maiores fenômenos que cercam o Batman na internet brasileira: o fanfilm paródico Batman Feira da Fruta, ou Filme do Batiman (sim, a grafia é errada mesmo).
Para quem vive em Vênus, aqui vai um resumo rápido da história: um episódio inteiro da série camp do Batman (aquela dos anos 60, estrelada pelo gordinho Adam West) foi redublado com um monte de palavrões e diálogos inverossímeis por três adolescentes paulistas, os irmãos Antônio e José Luis Camano, mais o amigo Fernando Penatti. A sátira foi gravada em 1981, como uma reles brincadeira de tarde, em um videocassete JVC 6700 com entrada para microfone, e era exibida apenas para amigos do trio, mas foi redescoberta e difundida pela internet desde 2003.
É melhor assistindo do que explicando, então taí. Importante: a dublagem nos primeiros minutos é a dublagem original brasileira do episódio. A redublagem mesmo só começa de fato pouco depois dos créditos da produção, lá pelo segundo 3:25.
Agora vamos aos 10 fatos que transformaram Feira da Fruta em um clássico:
1 - Lançou tendência: nem em 1981, nem em 2003 existia o Tela Class, criação dos humoristas da MTV Hermes e Renato. Não existia O Destino de Miguel, paródia sem sal (na minha opinião) do elenco do finado programa Sexo Frágil (Globo) mais convidados; e não existia as inúmeras redublagens toscas que povoam a internet, como o Seu Madruga maconheiro ou as de Vale Tudo do Las Bibas From Vizcaya. Depois do "Bátima", as redublagens se tornaram cool.
2 - Tosco, porém refinado: a grande maioria das pessoas que assistem ao vídeo pela primeira vez não acha muita graça. Não parece muito diferente daquela brincadeira de infância de redublar uma conversa distante entre dois estranhos. Mas algo meio "O Chamado" acontece após o vídeo: você fica repassando as cenas na cabeça e só aos poucos vem o clique: "pô, aquilo é MUITO engraçado". Por mais paradoxal que seja, o humor do vídeo é tão tosco que se torna pós-modernamente sofisticado, pois você demora a assimilá-lo...
3 - Chavões para a vida toda: ...e assim que finalmente assume ser fã do vídeo, o passo seguinte é obrigatório: repetir os bordões da sátira em inúmeras situações, transformando-as em um dialeto próprio. "Eu vô comer a tia do Bátima" = "vou me dar bem", "Você quer um charuto, meu filho? É havano!" = "quer ganhar um presente?" e "não abre, senão vai cair o meu pinto" = "não faz isso, é perigoso!", e por aí vai. Só funciona, claro, entre amigos que também sejam fãs do vídeo.
4 - A trilha sonora: "Feira da Fruta" era uma música do Grupo Capote, banda baiana que tocava às vezes em parceria com Tom Zé. O repertório misturava ritmos tradicionais nordestinos, como o forró e o maxixe, com os instrumentos eletrônicos e a batida típicos dos grupos de rock, e sobretudo uma boa dose de humor nas letras. "Feira da Fruta" chegou a ter um pequeno sucesso no Carnaval de 1973. O deboche da canção levou os criadores do vídeo a incluí-la em quase todas as cenas, o que reviveu o interesse pela música, que antes do sucesso do vídeo já estava no limbo da MPB. É impossível não cantá-la depois de assistir à paródia.
5 - Palavrões sem medo: até nos dias de hoje, o palavrão é um grande tabu. Imagine em 1981. Em entrevistas, Fernando assume que quando diz no vídeo "Robin, modere o seu linguajar, por favor" era para Antônio parar de falar tanto palavrão, já que eles não sabiam quem poderia assistir a fita depois. No entanto, o palavreado desbocado é talvez um dos maiores fatores de sucesso do vídeo, justamente pela subversividade que o ato de falar palavrão ainda representa.
6 - O nonsense: Quem já assistiu ao Tela Class ou O Destino de Miguel sabe que eles fizeram edições para encaixar a história da paródia nas cenas escolhidas. Além disso, os diálogos da dublagem foram escritos previamente. Com o Batman Feira da Fruta não teve nada isso. O episódio da série, "Um adversário à altura de um medonho bandido", foi redublado quase por inteiro, e totalmente em tempo real. Ou seja, todas as falas foram improvisadas à medida que o videocassete exibia as cenas. Os únicos cuidados prévios foram três: ficou combinado que Fernando dublaria o Robin e Antônio o Batman; antes da gravação de fato, assistiram à gravação pelo menos umas dez vezes, até sentirem-se prontos; e faziam pausas quando não conseguiam segurar as risadas. Resultado: muitas falas não faziam o menor sentido. Por exemplo, em uma das cenas Robin está em campo, disfarçado, e se comunicando com Batman em um microfone. Daí vem o diálogo: "Batman, tá me escutando, seu bicha??". "Vamo parar com esse xingamento, hein?" "Então liga o radinho nessa merda!". Daí o espectador se pergunta o que ligar o rádio do carro tem a ver com xingamentos...
7 - A "atuação": O improviso, amadorismo e cara-de-pau do trio de dubladores se reflete nas "atuações" e se mistura às próprias atuações da série camp. Assim como no original, Batman tem um jeitão canastríssimo e Coringa mantém seus tiques efeminados, mas com um carregado e hilário sotaque paulista. Robin, no entanto, em vez de ser o bom moço de sempre, se torna um moleque malcriado aos extremos. Mas o destaque fica para "Clotilde" (Suzy, no original), uma coadjuvante do episódio que é líder de torcida. Como não havia uma mulher naquela tarde da dublagem, Antônio se encarregou de dublar a moça. O falsete fake do rapaz é um dos pontos altos do vídeo. Um fã do Feira da Fruta não consegue mais associar as cenas ao enredo do episódio original.
8 - A proporção na internet: No Orkut, uma busca por "Feira da Fruta" rende apenas 24 (opa!) comunidades hoje, mas não é o bastante, pois existem inúmeras que foram criadas com os bordões do "filme", como "eu vo come a tia do batima", "c ké um charuto? eh havano", "Robin Viadinho", etc. Talvez a maior ainda seja a "Filme do Batiman", com mais de 12 mil associados. No YouTube pipocam trechos do vídeo, além da versão integral (acima). Existem "continuações" não-oficiais, dubladas por outros sujeitos. Um cara no MySpace fez até dois funks com os diálogos. A verdade é que, sem a internet e as intervenções dos internautas, dificilmente o Feira da Fruta teria ganho a popularidade que ganhou.
9 - Instant celebrities: já quarentões e barrigudos, Antônio Camano e Fernando Penatti, idealizadores do vídeo (José Luiz só fez uma participação dublando o Comissário Gordon), entraram para o rol de celebridades de internet. No maior bom humor e falta de noção, os dois até particaparam de um evento dedicado ao vídeo, em 2003, com as máscaras de Batman e Robin.10 - Difícil de enjoar: Por todos os motivos acima, os fãs do vídeo geralmente têm o hábito de assistir ao dito cujo inúmeras vezes, sempre prestando atenção em detalhes que passaram despercebidos antes, como um efeito sonoro ou uma fala mal articulada. Uma degustação que só costumamos fazer com as obras-primas.
Fontes: Jornalista de Merda, Wikipedia e comunidades do Orkut
3 comentários:
Parabéns, excelente post, muito bom mesmo.
Um coisa interessante, é no trecho dos chavões, é que eu nunca tinha feito uso deles e nem faço, com ou por mera analogia ou melhor metáforas como descreve, e sim pelo sentido "real" mesmo da bagaça.
Quando digo, por exemplo, que eu vô comer a tia do Bátima é porque eu vô mesmo comer a véia. E por ai segue. Eu tentar, ainda não consegui realizar esse sonho, mas não desisto nunca.
HAuHAUahuahUahhauhaUA
Mas gostei.
Valeu.
Feira da Fruta mudou minha vida.
Huahuahauahauahuahauahau
Opa, valeu aí. Vamos todos degustar a irmã da mãe do Palhaço nessa sexta!
Do palhaço não, do morcego!
Postar um comentário