segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Quem tem medo do Salão do Automóvel?



Fiquei dividido quando fiz esta reportagem (na verdade, meio a meio com Ludmilla Balduino) sobre o Salão do Automóvel, há duas semanas.

Meu lado nerd-consumista-deslumbrado achou a pauta uma das coisas mais legais dos últimos tempos. O Salão é o equivalente a uma incrível e imensa loja de brinquedos para homens acima dos 30 anos. Carros bonitos e modernos de todos os tipos, mulheres muito bonitas e boazudas ladeando quase todos os veículos (só uma minoria era mais feinha), várias atraçõezinhas paralelas - show de hologramas, show de axé dos próprios funcionários da Volkswagen, estande da MTV com Rock Band... enfim, em um passeio completo para se divertir naquilo tudo, duas horas é muito pouco.

Agora meu lado chato-crítico-noiado fica pensando que aquele circo da luxúria masculina dissemina, de forma dissimulada, alguns valores bastante negativos.

Em primeiro lugar, tirando alguns poucos modelos econômicos, quase nada daquilo é para o seu bolso. Há bastante tempo que carro é um produto de valor agregado à marca, ao status, ao "você não é homem o bastante para ter um desses". Isso fica bem nítido na parte das Ferraris, pois os sorrisos de todos ali não é porque iriam sair dali de Ferrari, mas porque estavam felizes só por estar perto dos veículos. Às vezes acho que isso não deixa de ser um pouco humilhante, do tipo "jogar sua baixa estima lá pro alto", como diz Paulo Bonfá do Rockgol.

Segundo, porque a publicidade automotiva não avançou muito na pobre associação freudiana do carro como símbolo de potência sexual, visto a enorme quantidade de mulheres em vestidos justos que acabam propagando ainda mais essa pobreza de espírito a nós, homens. Mas sendo otimista, percebi uma coisa boa: nas marcas mais respeitadas, as mulheres usavam vestidos mais comportados; já no estande da Chana (sim, existe uma marca com esse nome) e similares, tome roupa curta nas meninas para chamar a atenção da comunidade tarada. A reportagem conta um exemplo de constrangimento que uma delas passou.

"Mas e a Erotika Fair, não é a mesma coisa?", perguntaria você. Ao meu ver, não é a mesma coisa porque na Erotika não há dissimulação. Ali a regra é clara: atores e atrizes pornô são pedaços de carne a serviço do sexo e sabem muito bem disso. Desde que não haja assédio físico não concedido de uma das partes, o resto é liberado. As mulheres mostram o peito, a periquita e todo o resto de propósito porque querem ser "secadas", pois será bom para o negócio dela (falo do trabalho mesmo, não da periquita).

Já no Salão, pelo que conversei com as modelos, elas de um modo geral acham o trabalho bem chatinho - isso quando não fica desagradável mesmo, com os mais tarados chegando perto para boliná-las na hora de de tirar foto - e só o fazem pela grana e pela visibilidade.

E por fim, o mais preocupante. Oras, em pleno século 21, com crise do petróleo, todo esse papo de biocombustível, e o trânsito das megalópoles um caos, para que ainda precisamos de carros? Quer dizer, não acha que está mais do que na hora de repensarmos esse modelo individualista de transporte e trazer alternativas?

Será que já não devemos seguir o exemplo dos nossos amigos de Jornada nas Estrelas?


Bote fé! Vida longa e próspera!

2 comentários:

Anônimo disse...

E cadê o carro a hydrogênio?
Todos os criadores de tendências merecem perder tudo na crise de crédito e derreter no aquecimento global.
Augusto.

MPadrão disse...

Possivelmente os criadores de tendências criaram também a crise de crédito para lucrar com ela.