Há algum tempo eu venho me perguntando: quais são os limites éticos do humor, se é que existem?
Desde que o mundo é mundo a gente sabe que comédia e tragédias são dois lados da mesma moeda, como nos ensina aquelas mascarazinhas que simbolizam o teatro. Ou seja, tem gente que ignora, mas a matéria-prima do humor é, sim, o sofrimento humano. Uma das formas mais universais de humor é o sujeito escorregar em uma casca de banana e se esborrachar no chão. E a gente ri porque foi com ele; se fosse conosco, doeria.
O Monty Phyton revolucionou o humor porque trouxe à profissão - ou acentuou, talvez - elementos como o caos, a imprevisibilidade nonsense e a crueldade dos novos tempos. Mas o que difere eles da geração atual do humor é que todo o conteúdo cômico ainda pertencia ao ambiente controlado da ficção.
Daí veio Andy Kaufman, que subverteu tudo de novo nos Estados Unidos. Acho que Kaufman foi o primeiro grande humorista a lidar diretamente com o mundo real. E leia-se qualquer tipo de humor, com metódos até hoje herméticos, como interpretar personagens "full time" ou ler textos longos e maçantes em seus shows nos teatros só para sentir as diferentes reações da plateia. Dali por diante, a quarta parede estava definitivamente quebrada. O público deixaria de ser o confortável espectador para se tornar o potencial alvo da piada, quer ele goste ou não.
No Brasil, a herança de Kaufman veio lentamente. Deve ter começado com o Ernesto Varela de Marcelo Tas, as pegadinhas de Silvio Santos e as entrevistas de rua dos Cassetas. O "Pânico" provavelmente foi o primeiro a vestir essa camisa mais abertamente e eles até hoje chocam as pessoas com seu modus operandi (falei bonito agora).
Particularmente, como espectador assíduo do "Pânico", o que me deixa bolado neles nem é eles ridicularizarem pessoa X ou Y, mas a forma como eles manipulam todo o conteúdo para que você sempre fique na dúvida se aquilo é ou não armado. Porque se não é combinado, a gente sente pena do sujeito que topou com eles; se é armação, o idiota da história é a gente, que ainda deposita confiança neles.
Adicione a essa situação o fato de que estamos vivendo tempos complicados. Crise econômica, aquecimento global - enfim, o fim do mundo - em meio a um ultrapatrulhamento do politicamente correto que quase levou uma piadinha boba de Danilo Gentili no Twitter a um processo do Ministério Público.
Mas nem ia falar disso, e sim de "Brüno".
Eu já havia gostado muito de "Borat", fui ver esse cheio de expectativa e saí de lá razoavelmente satisfeito. Mas todo o questionamento que tenho com muitas das coisas que assisto no "Pânico" me distraíram muito na sessão de "Brüno".
A genialidade de Sacha Baron Cohen se dá porque o cara é de fato ousado; os filmes dele parecem "South Park" em live action. Mas méritos cômicos à parte, afinal, a cena com o político republicano foi armação? Se foi, o político realmente "vendeu" sua índole para se promover em uma comédia? E se não foi, porque aquele político, dentre tantos outros, mereceu ser sacaneado por Cohen?
[SPOILER]Tem lá a cena onde Brüno mostra seu pinto em um piloto de TV. Mas fica muito claro que aquele não é o pinto de Cohen porque, quando ele fica todo nu em outra cena, colocam quadradinhos no bilau dele. Ou seja, deixem os figurantes se exporem, eu não.[/SPOILER]
Essas dúvidas me fazem crer que estamos vendo um período de incertezas e novidades no humor. Acho que a quebra da quarta parede é uma tendência que veio para ficar, e acho de certa forma bem vindo, mas francamente, colocar guindaste para encher o saco de uma celebridade apenas por sadismo já começa a me deixar cabreiro sobre até onde vale a pena arrancar uma risada de alguém.
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