terça-feira, 13 de outubro de 2009

Watchmen, o filme, a bronca

Ninguém pediu, ninguém quis saber, mas como sou homem de cumprir minha palavra, aí vai a segunda parte da minha análise (cof!) sobre o filme de "Watchmen" (a primeira parte aqui).

Atenção: vai ter spoiler adoidado daí pro fim do post; não faz sentido ficar avisando os trechos, como geralmente faço.

Antes do filme, acompanhei notícias sobre o dito cujo e acabei esbarrando em alguns spoilers - que na verdade, não sei se dava para chamar dessa forma, visto que se tratava da adaptação de uma HQ de 1985 que eu li e reli algumas vezes.

Tergiversações à parte, o spoiler que mais me chamou a atenção foi o final do filme, que troca o alien gerado por Ozymandias por bombas que emulam o poder do Dr. Manhattan, colocando nele a culpa pelo genocídio. A partir daí, já havia ficado cabreiro, e - depois eu iria comprovar - com razão.

Pode parecer detalhe para os leigos, mas este foi o cerne da enorme diferença qualitativa entre a HQ e o filme. Como bem lembrou Hell do Melhores do Mundo, a função do alien na obra original de Alan Moore era fazer as nações se unirem para se protegerem daquela nova ameaça devastadora, que por não ser da Terra estava além das picuinhas políticas da então Guerra Fria.

Já no filme a farsa de Ozymandias coloca o Dr. Manhattan como bode expiatório, que até então era a arma suprema dos Estados Unidos e um dos maiores elementos de tensão da Guerra Fria. Oras, a União Soviética ia mesmo deixar isso barato e entrar nessa de paz mundial?

Quando o diretor Zack Snyder faz essa pequena mudança, alegando em entrevistas que assim tornou o final mais "elegante", ele forçou uma falha de roteiro em um momento crucial da obra, criando um total desvio de significado. Em suma, ele estragou "Watchmen" sim.

E não adianta dizer que, seguindo essa lógica, a URSS entenderia que um Dr. Manhattan raivoso seria algo preocupante para todo o mundo, não apenas aos Estados Unidos. Mesmo que assim fosse, essa deveria ser uma decisão do criador da obra, não do "adaptador".

O filme traz ainda outros problemas de menor proporção, mas um tanto chatinhos se somados. Mesmo com duas horas e meia, era evidente que a produção não daria conta de englobar todos os detalhes da minissérie em 12 partes. Cada capítulo, a meu ver, já daria um longa-metragem cheio de informações que deixariam "Cidadão Kane" parecendo os filmes da Xuxa.

Daí o filme perde subtramas que, de fato, não são tão cruciais ao plot principal, mas que faziam toda a diferença no conjunto da obra. Não vemos Rorschach quebrando dedos no bar, nem os Contos do Cargueiro Negro (que ganharam um DVD à parte para furtar nerds ricos), nem a morte de Hollis Mason, nem as histórias paralelas dos novaiorquinos comuns que seriam mortos pela bomba. A revelação do rosto de Rorschach nem faz sentido na hora em que acontece. Tudo isso só para ficar na análise superficial.

Ok, até aqui, "Watchmen" vacilou feio como adaptação. Mas serve como um filme à parte, principalmente para os novatos? Assisti com minha esposa e ela disse ter entendido tudo e gostado da história. Soube de outras pessoas que disseram o mesmo.

Já eu me incomodei um pouco com as atuações apagadas de Malin Akerman como Espectral e principalmente Matthew Goode como Ozymandias, que tirou todo o ar imponente do personagem, pondo no lugar um ar efeminado e de olhar blasé. Além disso, o eterno tique "câmera lenta x acelerada" de Zack Snyder, o uniforme cafona de Ozymandias e os filtros de cor deixaram o filme inteiro com um rótulo boboca "olha, sou baseado em quadrinhos!".

Outro momento bastante vergonhoso foi após a morte de Rorschach, com direito a "nooooo" e soquinhos no vilão. Glória Perez não faria melhor.

Agora, se você gostou do filme e alcançou a proeza de chegar até aqui no texto, parabéns. Agora vou falar das qualidades da produção.

Gostei principalmente da bem cuidada produção no tangente aos cenários, as reconstituições de época e os uniformes dos demais vigilantes. Nestes aspectos, sim, a fidelidade à HQ é impressionante e até carinhosa, no sentido übernerd de ser.

Acentuaram a violência. Não vi problema, visto que no original os momentos violentos tinham a mesma função que tiveram na adaptação: pegar o leitor/espectador pelo choque. Mas 1985 é diferente de 2009: tempos mais cruéis, cenas mais cruéis.

A trilha sonora está bem representada. Li por aí críticas ao uso da "Cavalgada das Valquírias" nas cenas do Vietnã, que lembrava "Apocalypse Now" e tal. Até entendo, mas na hora que assisti, não vi problema algum. A abertura com "The Times They Are A-Changin'" (Dylan) ficou muito legal, assim como "The Sound of Silence" (Simon & Garfunkel) no enterro. Sò senti falta de “The Comedians”, de Elvis Costello, citada no início da HQ.

O ponto alto, no entanto, foram as atuações de Jackie Earle Haley como Rorschach e Jeffrey Dean Morgan como Comediante. Os atores captaram muito bem as nuances dos personagens; e Rorschach, até onde sei, se tornou o favorito do público. A patroa até lamentou a morte dele. A semelhança física também é notável - outro ponto positivo na escolha do elenco, excetuando, claro, o citado Matthew Goode, que pegou o papel que nasceu para ser de Jude Law.

"Watchmen" é isso aí. Filme-espetáculo acima da média para leigos, mas um grande WTF aos Mooremaníacos. Pensando positivamente, é bom lembrarmos que poderia ser bem pior. Pelo menos não resultou em algo do naipe de "A Liga Extraordinária" ou "Do Inferno". Imaginem... sei lá, Dr. Manhattan verde e de roupa, Tom Cruise como Comediante, Michael Bay ou Joel Schumacher na direção...

Nenhum comentário: