quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Prelúdio a Watchmen, ou Sobre Adaptações

Tudo que envolve "Watchmen" é complicado e por isso eu não poderia descumprir a regra. Daí vou comentar o filme em dois posts, para (tentar) não ficar calhamaço demais.

Adaptar uma obra para outra mídia é um lance difícil. O cinema é possívelmente a manifestação artística que mais pede ideias emprestadas de outros meios. É impossível hoje calcular a quantidade de filmes cuja história original tenha surgido da literatura, por exemplo.

É sempre tentador recitar um paradigma quanto às adaptações: na transição de uma mídia para a outra, elas tendem a desperdiçar bom conteúdo do material original, seja acidentalmente ou deliberadamente (aqui, por sua vez, por força das circunstâncias ou por predileção pessoal dos envolvidos), o que resulta em um produto supostamente desrespeitoso com tal material.

No cinema, isso fica latente por uma série de fatores. Cinema é arte e narrativa, mas também é negócio, é publicidade, é comunicação com públicos e suas respectivas culturas e preconceitos. Muita coisa está em jogo quando você chega à bilheteria para comprar um ingresso, sentar na poltrona da sala escura e sair de lá satisfeito (ou não).

Sendo assim, melhor seria deixar cada história em seu meio original? Indo por esse argumento, possivelmente o criador da obra se expressou naquele meio por achar que sua história dependia das características intrínsecas ao formato para que fizesse sentido. Por exemplo, você imagina um livro sobre "Cidadão Kane" tão bom quanto o filme?

Pelo menos é assim que Alan Moore pensa; ele ganhou fama nas HQs não apenas pela genialidade inerente, mas porque ele tem uma profunda preocupação em explorar todos os recursos que os quadrinhos oferecem como formato - isso quando ele mesmo não se aventura a criar novos recursos. Quando suas histórias migram para o cinema, não apenas perdem o charme do formato como são bastante alteradas á sua revelia. E é por essa e outras razões que o barbudo detesta todas as adaptações de cinema oriundas de suas criações.

Apesar de entender esse ponto de vista, eu não sou tão radical quanto Moore. Algumas das minhas adaptações HQ/cinema favoritas acabam trazendo uma ou outra modificação que, quando não me incomoda, pode até dar um "plus" ao cânone; vide as roupas de couro dos X-Men ou Mary Jane ser a primeira namorada de Peter Parker. Já uma adaptação ultrafiel como foi "Sin City" eu considerei uma chatice sem criatividade, justamente por não apresentar nada de novo a quem já havia lido os encadernados (meu caso).

Adaptar "Watchmen" envolveu tudo isso, e mais: todo o culto à minissérie de Moore e Dave Gibbons só cresceu com o passar dos anos, gerando uma imensa legião de xiitas no mundo inteiro. E todos os fatores que dificultam uma adaptação, que falei no quarto parágrafo, foram barreiras imensas para levar uma história tão cultuada - e ao mesmo tempo tão complexa e cheia de elementos chocantes - às telas.

(Pois é... falei que ia escrever muito. Daí do filme em si falarei no próximo post. Aguarde e confie)

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