
Você já deve ter lido por aí sobre Caio, o primeiro personagem criado com Maurício de Sousa supostamente gay. O "supostamente" deve-se ao fato de que nem Maurício nem a história que apresentam o personagem ainda falarem isso com todas as letras.
O quadrinista mais bem sucedido do Brasil é uma figura polêmica no meio. É louvado como o único grande empreendedor dos quadrinhos nacionais - Mônica é líder de vendas no país e estampa inúmeros produtos licenciados há pelo menos uns 40 anos - e como um educador humanista, trazendo aos poucos em suas histórias, de forma elegante, temas sociais espinhosos.
Por outro lado, o "Walt Disney brasileiro" é acusado de ter uma produção voltada demais para o mercado e de pouca relevância artística, além de ter a política de não creditar seus artistas e roteiristas no início de cada história (ficam apenas no expediente).
Maurício há alguns anos tem revelado uma faceta mais propositadamente controversa. Além da muito falada "mangalização/adolescentização" (e tome neologismo!) da Mônica, que para muitos (inclusive a mim) foram mais uma questão mercadológica que estética, o quadrinista vem há anos introduzindo personagens ligados a problemas sociais e novidades contemporâneas, como o cadeirante Luca, a ceguinha Dorinha, o "antenado" Bloguinho e agora o "gay" Caio, na revista de Tina.
Claro que a iniciativa de trazer esses debates para suas histórias - consideradas até então bastante fúteis pela "elite cultural" - é muito louvável, mas nenhum desses novos personagens foram muito explorados, até onde sei. Estreiam e depois são descartados. Até o momento, parece que Maurício quer meio que unir o útil - a exposição de uma importante questão social sob sua ótica - ao agradável - fazer um "buzz" para atrair a atenção daqueles que não leem suas revistas.
Estamos vivendo paradoxos nas questões de gênero. Vemos paradas gays lotadas, mas lotadas de gente que se divertem muito e conscientizam pouco. Atores assumem ser gays, mas jogadores de futebol ainda não. Gays ganham pacotes de turismo próprios, mas nem sempre podem entrar em igrejas em paz.
Seria bom se Maurício de Sousa conseguisse usar sua influência para aos poucos mudar positivamente a mentalidade de milhares de famílias conservadoras que ainda existem em pleno século XXI. Para que funcione, Caio precisa, enfim, sair do armário. Difícil é saber se o cauteloso (carola?) Maurício está interessado em ultrapassar essa linha.
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