
Bom, agora que o filme de "Watchmen" estreou, o nome de Alan Moore entra para a lista daqueles sujeitos que deixam de ser uma referência apenas em seu "campo" (salve, Bourdieu!) e se tornam ícones da cultura popular como um todo.
Eu uso agora o exemplo do "meu tio" - entidade genérica que significa uma pessoa de cultura relativamente limitada e com pouco interesse em ampliá-la para além do conhecimento trazido a ele pelo "Jornal Nacional" e "Fantástico".
"Meu tio" provavelmente não sabe quem é Ian Curtis ou Thurston Moore, mas "sabe" quem é John Lennon - "aquele cara dos Beatles" - e Pavarotti - "aquele que cantava ópera". "Meu tio" não sabe quem é Will Eisner, mas sabe quem é Maurício de Sousa, aquele que desenha (cof) a turma da Mônica.
E é possível que "meu tio" agora saiba quem é Alan Moore, se ele leu alguma coisa dos jornais recentes sobre o filme de "Watchmen". Sim, porque o barbudo mandou tirar o nome dele dos créditos do filme porque odeia Hollywood e o que Hollywood fez com os outros personagens que ele criou.
O problema é que, quando a pessoa sai do campo para se tornar mais popular, começam a falar algumas bobagens.
Álvaro Pereira Júnior citou um jornalista aí dos EUA que "tirou muito sarro das pretensões 'literárias' e 'eruditas' de Moore". E APJ parece concordar um pouco com o cara, apesar de supostamente ser fã da HQ.
Outro crítico que respeito até, Ricardo Calil, disse em tom de brincadeira (mas com um fundo de verdade) que "certas platitudes do Dr. Manhattan e algumas frases de efeito de Rorschach são literatura barata".
Eu até entendo o que eles querem dizer. A tal da pretensão é uma faca de dois gumes. De um lado, quando vai no tom certo, pode resultar em algo muito incrível e inovador, mas quando erra-se a mão, vira alvo fácil de chacota. Só que essas pessoas esquecem que "Watchmen", como qualquer manifestação com pretensões artísticas, é fruto de seu tempo.
Em 1986, "Watchmen" foi uma história produzida e planejada para valorizar o meio quadrinhos, tanto em forma quanto em conteúdo, quando estes permaneciam desacreditados frente ao povão. Hoje em dia, depois de todo mundo ter se acostumado a filmes "sérios" de super-heróis, como "X-Men", "Hulk" (o de Ang Lee) e "Batman - Cavaleiro das Trevas", é fácil falar que "Watchmen" ficou datado. Queria ver vocês dizerem isso lá em 86, quando a parada saiu e virou uma coqueluche. E mais: qual HQ conseguiu chegar até agora, em 2009, ainda relevante, mesmo "datada"?
Subestimar Alan Moore como um todo por causa de uma ou outra frase de efeito de Rorschach ou por seus posicionamentos políticos de universitário - e por algo que foi escrito há mais de 20 anos - é o equivalente a dizer que os plots de Shakespeare e Machado de Assis caducaram porque estes escreviam diálogos com muitos floreios para os dias de hoje. Queria saber se esse mesmo pessoal pensaria isso desses dois cânones, ou se tudo se resume a separar os primos ricos (teatro e literatura) do pobre (HQ).
P.S: Não vi o filme ainda. Depois que eu vê-lo, devo continuar o assunto por aqui.
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