Não tenho nada contra publicidade, mas me parece que estamos vivendo sob uma indústria cultural cada vez mais meta-meta-meta-publicitária. Há uns 20 anos, um filme só tinha como publicidade um trailer no cinema, um cartaz, stills (fotos do filme na bilheteria) e só. Quando muito, um comercial de TV e um outdoor.Agora são uns 15 teasers, 18 cartazes e 20 trailers, site oficial, DVD com animações com prelúdio ao filme, videogame, no mínimo uns cinco sites virais, todas as cenas do filme recortadas em pequenos vídeos no Youtube, 200 fotos em alta resolução, wallpapers. Fora as milhares de notícias por dia. Hoje se faz até notícia para divulgar onde e quando sai o trailer. Este ainda por cima virou motivo para se gabar de exclusividade. Parece que assistir ao trailer hoje é mais legal do que assistir ao filme. Ah, e toda essa divulgação acontece uns três anos antes da estréia do filme de fato.
Acho que Batman - O Cavaleiro das Trevas é um estudo de caso bem oportuno nesse sentido. Tudo bem, desde 1977 com o primeiro Star Wars que o marketing virou o braço direito dos blockbusters, mas acho que com essa produção o hype ganhou a sua proporção mais assustadora. Por mais méritos que o filme em si tenha - e são muitos méritos - ele praticamente sumiu diante do furacão midiático. Não fomos assistir a mais um filme legal de fim de semana, e sim o "filme do ano", o "último filme de Heath Ledger" (a tal da fascinação/medo da morte atacando de novo?), a "adaptação de quadrinhos mais realista" e qualquer outro clichê dos últimos três anos de campanha.
O que me deixou mais desconcertado é que, acostumado que sou com a crítica de cinema em analisar as adaptações de quadrinhos como quem disseca uma mosca no microscópio, notei que praticamente todas as primeiras críticas ao filme se tornaram mais um braço da campanha pró-TDK. Ok, acho perfeitamente possível um crítico ter gostado mesmo do filme, mas não era apenas isso: muitos textos traziam em peso os mesmos chavões da campanha! Pareceu que, ou se deixaram contaminar naturalmente pelo hype, ou pode até ter rolado um lobby de verdade mesmo.
E eu, masoquistamente falando, fiquei à espera de alguém que NÃO tenha gostado do filme - ou pelo menos que tivesse achado apenas um filme normal - desde que tivesse bons argumentos. Daí achei esses dois textos de Kleber Mendonça Filho e Fernando Vasconcelos. O de KMF, principalmente, me chamou a atenção porque, assim como esse post, tem a mesmo preocupação com a cada vez maior ausência de fronteira entre publicidade, meta-publicidade, ficção e buzz que é o novo Bátima.
Eu me chateio com uma tendência natural de parte da crítica e do público que é ironizar/desdenhar de blockbusters e hipervalorizar cinema "adulto/de arte". Não sou pago pelos grandes estúdios. Eu só acho que cinema é algo maior do que esse tipo de maniqueísmo, ora como algo carregado de subjetivos critérios pessoais, ora sendo preconceito mesmo. Robocop é um filme tão bom quanto A Noite Americana. Arca Russa é um filme tão ruim quanto Batman & Robin. Também não gosto do fato de muitos críticos com formação tradicional de cinema serem leigos em outras mídias, ficando assim a dever no arcabouço (gostou dessa palavra? bonita, hein?) de referências para julgar adaptações do cinema a essas outras mídias. Daí você tem que engolir o papo que o capuz do Dr. Destino (personagem criado nos anos 60) é "plágio" daquele usado por Darth Sidious em Star Wars nos anos 80/90/2000. Porém, pior que tudo isso é você abrir o browser e ler em todo e qualquer portal que o filme novo do Batman é perfeito e o melhor da história. Conviver com vozes dissonantes nos deixa menos tapados.
O que eu achei do filme? Bom pra cacete, sim. Atuações impecáveis (até do morto Ledger), sim. Ação fantástica, sim. Mas um pouco maior, com roteiro mais firulento e mais pretensioso do que deveria. Pra mim a abordagem do diretor e da Warner está corretíssima; o Batman dos novos tempos tem que ser exatamente assim. Mas dá pra dosar mais o marketing da próxima vez pra eu não cansar do filme antes mesmo de assisti-lo, tio?
Nenhum comentário:
Postar um comentário