"Temer a morte, atenienses, não é mais que acreditar-se sábio, sem o ser, porque é crer que sabemos o que não sabemos" (Platão)
"A crença na necessidade interna da morte não passa de uma das numerosas ilusões que criamos para nos tornar suportável o fardo da existência... no fundo, ninguém acredita em sua própria morte ou, o que dá no mesmo, em seu inconsciente cada um está persuadido de sua própria imortalidade" (Freud)
"A morte não é um acontecimento da vida. A morte não pode ser vivida" (Wittgenstein)
Lendo este post tão bonito sobre o finado Rafa do Mombojó, que se foi há um ano, me vi pensando na minha própria relação com o conceito de morte.
Quando a gente é criança, todas as pessoas são vivas e não morrem. Explico: os únicos mortos que conhecemos são os mortos dos livros e revistas. As pessoas próximas estão vivas, e mesmo velhinhas, a gente raramente se toca que elas podem morrer cedo ou tarde. A primeira pessoa com a qual convivi e que morreu, eu devia ter uns oito anos. Era o pai de um amigo do meu pai. Ou seja, nada sério.
Daí o meu avô paterno morreu, em meados de 1990, e daí senti que a tal da morte existia mesmo. E aquelas pessoas que estavam ao nosso alcance um dia seriam "levadas" de nós. E em vez de falarmos nelas no presente - fulano é legal - passa a ser no passado - fulano era legal.
Hoje em dia, de parentes, já vi morrerem uma tia, um tio, uma avó e dois avôs. A minha avó materna eu não "senti" muito porque ela morreu quando eu tinha dois anos. Mas a minha tia foi o mais sério, pois morreu de uma bala perdida, perto de casa, num 23 de dezembro. Não tinha nem cinqüenta anos e deixou dois filhos.
Mas eu também senti bastante mortes de famosos que foram importantes para a minha formação cultural. Destaco pelo menos quatro: Kurt Cobain, Chico Science, Christopher Reeve e Will Eisner. Kurt foi o caso mais forte, pois ele era um cara jovem no auge da fama, um ídolo, um cara sensível e inteligente, que de repente resolveu se matar. Aliás, suicídio é tão intrigante quanto a morte, porque assim como as pessoas não aceitam a morte ocorrida do destino, não aceitam a desistência de viver.
E eu também sou desses de resgatar da memória os momentos que tive com a pessoa. Lembro da minha tia me presenteando com um barbeador elétrico. Lembro da entrevista de cinco minutos que fiz com Will Eisner quando ele passou pelo Recife; e da simpatia e sorriso largo que ele trazia no rosto todo o tempo. Lembro de ver o Rafa circulando pelo CAC da UFPE e tocando nos shows, e apesar de não curtir Mombojó, ele era pra mim um dos jovens músicos mais virtuosos do Recife, ao lado de Haymone Neto (Mellotrons) e Carlos Montenegro (ex-Profiterolis). Virtuoso no bom sentido, não no sentido "Yngwie Malmsteen" do termo.
Vi o Rafa tocando flauta no Mombojó, baixo no Del Rey e trompete no Trio Pouca Chinfra, e sempre muito bem. Nesse show do Pouca Chinfra, durante um casamento, foi quando tive meu último fiapo de conversa com ele. "Vocês [o Mombojó] vão tocar hoje de noite lá na praia [Recife Convida, um evento da Prefeitura na praia do Pina]. Vai dar tempo de terminar o show aqui e depois ir pra lá?". Ele: "Vai sim, o show vai ser bem mais tarde, dá tranqüilo".
Ele realmente era a tranqüilidade em pessoa. E assim deveríamos encarar a vida, com tranqüilidade, porque da morte não passa.
P.S.: O nosso fascínio macabro pela morte hoje em dia se estica até às nerdices, como no Profiles de Gente Morta do Orkut. Tem gente que acha isso um lance meio bizarro (com certa razão), mas acho que também passa por todas as incertezas que disse aqui. E a descrição da comunidade mostra isso. "Mas o que são esses rastros?? Seriam eles úteis?? Um conforto para quem fica?? Uma imortalidade virtual?? Bom, estamos aí para discutir... (...) Não é permitido brincadeiras de má intenção, bem como falta de respeito com os mortos."
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