Eu ia escrever alguma coisa bem quilométrica aqui pra falar do fim da obrigatoriedade do diploma para jornalistas, mas como já tagarelei demais no Twitter e recebi algumas respostas interessantes, então vou fazer uma coletânea.
Só um detalhe: a minha "indignação" com o assunto é parte verdade, parte exagero "cômico". Ainda há muito a ser discutido e eu mesmo não estou com uma opinião 100% formada sobre o assunto.
[a discussão antes]
@tcordeiro O diploma de jornalismo não é mais obrigatório p/profissão. Ainda bem. Discorda? leia: http://migre.me/2qHx via@carvoeiropat #diploma
@inagaki RT @msoares: "... isso que eu acho do povo que diz 'ai, joguei 4 anos fora', 'gastei um carro zero'. Pô, estudaram ou COMPRARAM CANUDO?"
@zenzi não sei por que tanto drama com a queda do diploma de jornalismo. quem é realmente competente vai ter emprego, com diploma ou não.
@mateusmcb @zenzi também sou a favor Zenzi, mas de certa forma eu entendo o desespero da classe, é uma profissão já de pouquíssimas oportunidades.
@badalhoca RT @desobediente RT: @samadeu O fim do diploma para exercer a profissão de jornalista é um avanço para a comunicação...
@badalhoca hahahaha RT @jonaslopes O chato de o diploma ter caído é que com certeza vão querer falar só disso com o Gay Talese na Flip.
@maritramontina Quer dizer, então, que agora eu não tenho direito nem a cela especial? Que só tenho segundo grau?
@rodflores Caro ministro Cezar Peluso: pode votar contra, mas também não precisa esculhambar com a profissão, né?
@trasel Caiu o diploma. Não acho o fim do mundo, mas irrita terem tomado a decisão com base em argumentos equivocados.
@alesie Fim da exigência do diploma de jornalismo aprovada pelo STF (via @camilorocha). Bora queimar vossos diplomas, jornalistões!
@marcelohessel #diploma bom, vou dar meu testemunho... nada das muitas coisas que aprendi na faculdade de jornalismo tinha a ver com a profissão.
[aqui eu me enxeri]
Eu: Quero ver os twitteiros aí defendendo o fim do diploma se os filhos deles perderem vagas pra uma redação cheia de contadores e enfermeiros.
Eu: Até acho válido gente de qualquer profissão fazer notícia. Mas se diploma agora não serve pra gente, por que serve pras outras profissões?
@thethales @mpadrao, se um filho meu escrevesse pior que um engenheiro ou enfermeiro, seria justo perder a vaga. E ainda tomava uns cascudos.
@lubalduino @mpadrao, imagine uma redação cheia de cozinheiros! Hahahaa
eu: @thethales hehe, pô, eu devo escrever pior que um monte de empresário. mas o que tá em jogo é educação x corporativismo.
Eu: @lubalduino o povo vai pegar aqueles monitores velhos pra transformar em panelas :P
@thethales @mpadrao, acho que ainda é muito cedo pra dizer como as coisas vão acontecer. As próprias empresas podem criar regras etc. Vamos esperar.
Eu: Vou mudar de profissão. Preciso de diploma pra ser deputado? Não, né? Isso explica muita coisa.
Eu: Por outro lado, isso talvez dê uma melhorada nas universidades de jornalismo também, pra poderem superar a concorrência maior.
@jarmesong @mpadrao Deputados são diplomados após a eleição. Não que isso valha de alguma coisa, né... :P
@zenzi @mpadrao contadores e enfermeiros melhores do que jornalistas formados? total apoio.
Eu: @zenzi com o fim do diploma, é capaz dos alunos das faculdades com diploma vão acabar escrevendo melhor mesmo.
@frufru @mpadrao pra publicitário nunca serviu. e a gente não tá aí fazendo mimimi. :P
Eu: @frufru pô, eu apóio diploma pra publicitário também. e pra radialista, que é o lado mais marginalizado da comunicação.
@frufru @mpadrao que nada. tô aqui trabalhando, todos os meus amigos tão. e tem mil ótimos publicitários formados em outras coisas. relaxa.
Eu: Pra resumir: na prática, eu acho diploma meio inútil há tempos tb. mas acho que ou todas as profissões têm diploma, ou nenhuma deve ter.
@frufru @mpadrao é, aí vão começar a existir médicos e engenheiros sem diploma? nenhum sentido.
Eu: @frufru apóio, ué. quem escreve bem também sabe fazer casa e abrir estômago. na dúvida, o google ensina.
[eu e outros já esculhachando]
Eu: Tá bom, sem uso ele não fica. Vou pintar uma bandeira do Brasil no meu diploma pra usar na Copa de 2014. Ha haai.
@jarmesong Já que esse diploma não me servirá mais de nada, vou fazer um origami com ele.
@maritramontina Ok, parei de mimimi. Estou fumando meu diploma na redação.
@maritramontina Curso instantâneo via-twitter de lead, sublead e suíte. Vagas abertas para cozinheiros, médicos, engenheiros e advogados. Tratar aqui.
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quarta-feira, 17 de junho de 2009
quinta-feira, 11 de junho de 2009
A promessa de "Ulisses"
Na verdade a promessa foi desculpa, pois sempre quis ler esse livro. Acho que foi Sílvia que disse uma vez que ninguém nunca leu esse livro; os que dizem que leram falam isso para contar vantagem.
Bom, eu passei no mestrado e não esqueci da promessa, mas demorei muito para começar a cumpri-la. Só há um mês eu comprei um exemplar na Estante Virtual. Estou, nesse momento, na página 27. Faltam só umas 820.
Sobre o livro, o bagulho é meio louco mesmo. A narrativa não é muito clara, tanto porque ele conta tudo de forma muito truncada -- no ponto onde estou, você sabe o nome dos personagens, mas mal sabe o que fazem e o que querem, pois os diálogos dão poucas pistas disso -- quanto pelas palavras difíceis e/ou inventadas dele, como "vegetissombras" ou "almiscarperfumado".
Aí fui pedir umas dicas ao bródi Wikipedia e ele fala daquelas coisas de sempre: que é inspirado na "Odisséia" de Homero (que não me ajuda muito, pois nunca li também); que narra os fatos do dia 16 de junho; que o protagonista é o tal de Leopold Bloom (que ainda não apareceu na leitura)... mas o mais interessante é isso aqui:
Em seu romance, Joyce utiliza-se do fluxo de consciência, da paródia, de piadas e virtualmente todas as demais técnicas literárias para apresentar seus personagens.
Esse lance do fluxo de consciência é uma verdade: você mal sabe se o narrador é uma terceira pessoa ou um dos personagens matutando - e mal sabe do quê ele está falando.
De qualquer forma, essa dificuldade toda também é um incentivo para mim. Se eu cumprir essa odisséia (hohoho) da minha promessa, sairei de "Ulisses" como um sujeito mais inteligente (hohoho duplo).
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quinta-feira, 16 de abril de 2009
"I'm a weirdo"
Acho que essa foi uma das perguntas que mais ouvi nos últimos meses. E aí você se sente naquela situação meio desconfortável, pois qualquer resposta poderá ser usada contra você no tribunal do bom gosto musical.
Minha história com o Radiohead é muito simples. Tive a fase "só conheço 'Creep' e tô nem aí para eles"; a fase "ok, o 'OK Computer' é um disco bom e a banda merece mais atenção" e a atual fase: "Respeito a banda, respeito quem gosta, mas tirando um punhado de ótimas músicas, CAGUEI pro Radiohead".
Ok, muita calma nessa hora, pois tenho medo de perder 90% das minhas amizades com a declaração acima.
Exagerei nas tintas. Não caguei. É que só não queria pagar R$ 100 e me locomover para um bairro longe da minha casinha para ver o show de uma banda que respeito, mas que não me "toca" tão profundamente assim (oe!).
Sendo mais específico: o Radiohead é incrível pela atenção detalhada aos arranjos, pelo clima das músicas, pela estética dos álbuns e shows, pela competência dos músicos. Mas às vezes me irrito com os tiques do vocal de Thom Yorke, como aqueles gritinhos angustiados. Também acho que um pouco de despretensão não seria ruim, com músicas mais curtas e cantaroláveis alternando com as "progressivas".
Voltando à turnê no Brasil. Se eu fosse o Márcio Padrão de 15 anos atrás, teria ficado extremamente abusado com essa unanimidade ao redor da banda e a megaexpectativa em torno dos shows.
Ou teria ficado muito deprimido porque o show do Radiohead em SP simplesmente tirou toda a (já pouca) atenção ao dia do meu aniversário.
Mas nem. Fiquei até feliz pelas pessoas finalmente poderem presenciar a banda que tanto amam. A questão toda é que não compartilho desse sentimento. Aceitaria de bom grado um ingresso grátis, ou faria um esforço se estivesse custando MUITO barato, tipo R$ 10. Como não aconteceu, passou-se o show e não senti a menor falta de não ter assistido.
Mas para os miguxos do Radiohead que porventura lerem isso não ficarem tristes comigo, segue abaixo a minha coletânea perfeita do grupo de Thom "Periquito" Yorke:
1 - Creep
2 - High n' Dry
3 - My Iron Lung
4 - Fake Plastic Trees
5 - Paranoid Android
6 - Exit Music (For a Film)
7 - Let Down
8 - Karma Police
9 - No Surprises
10 - Everything In Its Right Place
11 - The National Anthem
12 - How to Disappear Completely
13 - Idioteque
14 - The Pyramid Song
15 - I Might Be Wrong
16 - Knives Out
17 - 2 + 2 = 5
18 - There, There
19 - Bodysnatches
20 - Jigsaw Falling Into Place
P.S.: Desenho retirado do Devianart de Manohead: http://manohead.deviantart.com.
UPDATE: Esqueci de falar o porquê das escolhas da coletânea. Priorizei o disco melhor, o "OK Computer", com cinco músicas. Nem acho o "Kid A" tão bom no geral, mas as quatro músicas que entraram são marcantes. Os dois primeiros realmente são fraquinhos, mas quis botar algo deles para não passarem em branco. Só lamento não ter posto mais músicas do "In Rainbows", que é meu segundo disco favorito, mas as músicas dele ainda não alcançaram o status de clássicas.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009
2009 chegou, e aí?
Estamos no sétimo dia do ano e já tem uma fila de coisas pela frente:
Reforma ortográfica (RIP trema!), reforma tributária (um dia sai!), novas regras do Detran (ficou mais caro e mais difícil virar um fornecedor de "tocos" dos guardas de trânsito), Ronaldo no Corinthians (como goleiro ou como bola, você escolhe), o Sport tetracampeão pernambucano (e com boa campanha na Libertadores!), os filmes de "Watchmen", "Wolverine" e "Transformers 2" (tô mais ansioso por esse último, apesar de Michael Bay), João da Costa como prefeito do Recife (boa sorte), Obama mandando no mundo ("yes, he can!"), os candidatos a defunto famoso do ano (Amy? Michael Jackson? Patrick Swayze? José Alencar? Steve Jobs? N.D.A.?)...
.... Israel desde já matando e morrendo (mais matando), Jesus loves Madonna (quanto tempo dura?), mais desastres naturais acabando com o mundo aos poucos (as nuvens de MG e SC ainda não desistiram), o que vai acontecer a Flora (por mim ela iria até a Índia sabotar a próxima novela), os novos "instant celebrities" do "BBB" (essa incansável fábrica de fatos relevantes, cof!), as próximas bandas hype (sempre aparecem boas e ruins), o terceiro disco do Franz Ferdinand (nice!)....
... o retorno de "Lost" e "24 Horas" (high five!), o ano dois do "CQC" ("olha isso!"), a espera pelo anúncio dos shows de Paul McCartney no Brasil (algo tipo o retorno de Cristo - o original, não o de Madonna), Kraftwerk abrindo para Radiohead (e Florian Schneider já estilou e pediu as contas), B-52's e AC/DC também vindo para cá (mas só eu pretendo ir ao show deles, até agora), a internet 3G ficando melhor e mais barata (adeus, cabos), o Brasil de novo NÃO ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro (e de novo os Barretões sobrarem)...
... isso fora os eventos pré-marcados desde que o mundo é mundo, como Carnaval, a Páscoa, os aniversários de pessoas queridas, São João, Dia das Mães, Pais e Crianças, Finados, Natal, Ano Novo, tudo de novo.
E fora as coisas que esqueci ou que hão de acontecer e ninguém previa.
É, 2009 promete.
Reforma ortográfica (RIP trema!), reforma tributária (um dia sai!), novas regras do Detran (ficou mais caro e mais difícil virar um fornecedor de "tocos" dos guardas de trânsito), Ronaldo no Corinthians (como goleiro ou como bola, você escolhe), o Sport tetracampeão pernambucano (e com boa campanha na Libertadores!), os filmes de "Watchmen", "Wolverine" e "Transformers 2" (tô mais ansioso por esse último, apesar de Michael Bay), João da Costa como prefeito do Recife (boa sorte), Obama mandando no mundo ("yes, he can!"), os candidatos a defunto famoso do ano (Amy? Michael Jackson? Patrick Swayze? José Alencar? Steve Jobs? N.D.A.?)...
.... Israel desde já matando e morrendo (mais matando), Jesus loves Madonna (quanto tempo dura?), mais desastres naturais acabando com o mundo aos poucos (as nuvens de MG e SC ainda não desistiram), o que vai acontecer a Flora (por mim ela iria até a Índia sabotar a próxima novela), os novos "instant celebrities" do "BBB" (essa incansável fábrica de fatos relevantes, cof!), as próximas bandas hype (sempre aparecem boas e ruins), o terceiro disco do Franz Ferdinand (nice!)....
... o retorno de "Lost" e "24 Horas" (high five!), o ano dois do "CQC" ("olha isso!"), a espera pelo anúncio dos shows de Paul McCartney no Brasil (algo tipo o retorno de Cristo - o original, não o de Madonna), Kraftwerk abrindo para Radiohead (e Florian Schneider já estilou e pediu as contas), B-52's e AC/DC também vindo para cá (mas só eu pretendo ir ao show deles, até agora), a internet 3G ficando melhor e mais barata (adeus, cabos), o Brasil de novo NÃO ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro (e de novo os Barretões sobrarem)...
... isso fora os eventos pré-marcados desde que o mundo é mundo, como Carnaval, a Páscoa, os aniversários de pessoas queridas, São João, Dia das Mães, Pais e Crianças, Finados, Natal, Ano Novo, tudo de novo.
E fora as coisas que esqueci ou que hão de acontecer e ninguém previa.
É, 2009 promete.
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quinta-feira, 10 de julho de 2008
Sobre a morte
"Temer a morte, atenienses, não é mais que acreditar-se sábio, sem o ser, porque é crer que sabemos o que não sabemos" (Platão)
"A crença na necessidade interna da morte não passa de uma das numerosas ilusões que criamos para nos tornar suportável o fardo da existência... no fundo, ninguém acredita em sua própria morte ou, o que dá no mesmo, em seu inconsciente cada um está persuadido de sua própria imortalidade" (Freud)
"A morte não é um acontecimento da vida. A morte não pode ser vivida" (Wittgenstein)
Lendo este post tão bonito sobre o finado Rafa do Mombojó, que se foi há um ano, me vi pensando na minha própria relação com o conceito de morte.
Quando a gente é criança, todas as pessoas são vivas e não morrem. Explico: os únicos mortos que conhecemos são os mortos dos livros e revistas. As pessoas próximas estão vivas, e mesmo velhinhas, a gente raramente se toca que elas podem morrer cedo ou tarde. A primeira pessoa com a qual convivi e que morreu, eu devia ter uns oito anos. Era o pai de um amigo do meu pai. Ou seja, nada sério.
Daí o meu avô paterno morreu, em meados de 1990, e daí senti que a tal da morte existia mesmo. E aquelas pessoas que estavam ao nosso alcance um dia seriam "levadas" de nós. E em vez de falarmos nelas no presente - fulano é legal - passa a ser no passado - fulano era legal.
Hoje em dia, de parentes, já vi morrerem uma tia, um tio, uma avó e dois avôs. A minha avó materna eu não "senti" muito porque ela morreu quando eu tinha dois anos. Mas a minha tia foi o mais sério, pois morreu de uma bala perdida, perto de casa, num 23 de dezembro. Não tinha nem cinqüenta anos e deixou dois filhos.
Mas eu também senti bastante mortes de famosos que foram importantes para a minha formação cultural. Destaco pelo menos quatro: Kurt Cobain, Chico Science, Christopher Reeve e Will Eisner. Kurt foi o caso mais forte, pois ele era um cara jovem no auge da fama, um ídolo, um cara sensível e inteligente, que de repente resolveu se matar. Aliás, suicídio é tão intrigante quanto a morte, porque assim como as pessoas não aceitam a morte ocorrida do destino, não aceitam a desistência de viver.
E eu também sou desses de resgatar da memória os momentos que tive com a pessoa. Lembro da minha tia me presenteando com um barbeador elétrico. Lembro da entrevista de cinco minutos que fiz com Will Eisner quando ele passou pelo Recife; e da simpatia e sorriso largo que ele trazia no rosto todo o tempo. Lembro de ver o Rafa circulando pelo CAC da UFPE e tocando nos shows, e apesar de não curtir Mombojó, ele era pra mim um dos jovens músicos mais virtuosos do Recife, ao lado de Haymone Neto (Mellotrons) e Carlos Montenegro (ex-Profiterolis). Virtuoso no bom sentido, não no sentido "Yngwie Malmsteen" do termo.
Vi o Rafa tocando flauta no Mombojó, baixo no Del Rey e trompete no Trio Pouca Chinfra, e sempre muito bem. Nesse show do Pouca Chinfra, durante um casamento, foi quando tive meu último fiapo de conversa com ele. "Vocês [o Mombojó] vão tocar hoje de noite lá na praia [Recife Convida, um evento da Prefeitura na praia do Pina]. Vai dar tempo de terminar o show aqui e depois ir pra lá?". Ele: "Vai sim, o show vai ser bem mais tarde, dá tranqüilo".
Ele realmente era a tranqüilidade em pessoa. E assim deveríamos encarar a vida, com tranqüilidade, porque da morte não passa.
P.S.: O nosso fascínio macabro pela morte hoje em dia se estica até às nerdices, como no Profiles de Gente Morta do Orkut. Tem gente que acha isso um lance meio bizarro (com certa razão), mas acho que também passa por todas as incertezas que disse aqui. E a descrição da comunidade mostra isso. "Mas o que são esses rastros?? Seriam eles úteis?? Um conforto para quem fica?? Uma imortalidade virtual?? Bom, estamos aí para discutir... (...) Não é permitido brincadeiras de má intenção, bem como falta de respeito com os mortos."
"A crença na necessidade interna da morte não passa de uma das numerosas ilusões que criamos para nos tornar suportável o fardo da existência... no fundo, ninguém acredita em sua própria morte ou, o que dá no mesmo, em seu inconsciente cada um está persuadido de sua própria imortalidade" (Freud)
"A morte não é um acontecimento da vida. A morte não pode ser vivida" (Wittgenstein)
Lendo este post tão bonito sobre o finado Rafa do Mombojó, que se foi há um ano, me vi pensando na minha própria relação com o conceito de morte.
Quando a gente é criança, todas as pessoas são vivas e não morrem. Explico: os únicos mortos que conhecemos são os mortos dos livros e revistas. As pessoas próximas estão vivas, e mesmo velhinhas, a gente raramente se toca que elas podem morrer cedo ou tarde. A primeira pessoa com a qual convivi e que morreu, eu devia ter uns oito anos. Era o pai de um amigo do meu pai. Ou seja, nada sério.
Daí o meu avô paterno morreu, em meados de 1990, e daí senti que a tal da morte existia mesmo. E aquelas pessoas que estavam ao nosso alcance um dia seriam "levadas" de nós. E em vez de falarmos nelas no presente - fulano é legal - passa a ser no passado - fulano era legal.
Hoje em dia, de parentes, já vi morrerem uma tia, um tio, uma avó e dois avôs. A minha avó materna eu não "senti" muito porque ela morreu quando eu tinha dois anos. Mas a minha tia foi o mais sério, pois morreu de uma bala perdida, perto de casa, num 23 de dezembro. Não tinha nem cinqüenta anos e deixou dois filhos.
Mas eu também senti bastante mortes de famosos que foram importantes para a minha formação cultural. Destaco pelo menos quatro: Kurt Cobain, Chico Science, Christopher Reeve e Will Eisner. Kurt foi o caso mais forte, pois ele era um cara jovem no auge da fama, um ídolo, um cara sensível e inteligente, que de repente resolveu se matar. Aliás, suicídio é tão intrigante quanto a morte, porque assim como as pessoas não aceitam a morte ocorrida do destino, não aceitam a desistência de viver.
E eu também sou desses de resgatar da memória os momentos que tive com a pessoa. Lembro da minha tia me presenteando com um barbeador elétrico. Lembro da entrevista de cinco minutos que fiz com Will Eisner quando ele passou pelo Recife; e da simpatia e sorriso largo que ele trazia no rosto todo o tempo. Lembro de ver o Rafa circulando pelo CAC da UFPE e tocando nos shows, e apesar de não curtir Mombojó, ele era pra mim um dos jovens músicos mais virtuosos do Recife, ao lado de Haymone Neto (Mellotrons) e Carlos Montenegro (ex-Profiterolis). Virtuoso no bom sentido, não no sentido "Yngwie Malmsteen" do termo.
Vi o Rafa tocando flauta no Mombojó, baixo no Del Rey e trompete no Trio Pouca Chinfra, e sempre muito bem. Nesse show do Pouca Chinfra, durante um casamento, foi quando tive meu último fiapo de conversa com ele. "Vocês [o Mombojó] vão tocar hoje de noite lá na praia [Recife Convida, um evento da Prefeitura na praia do Pina]. Vai dar tempo de terminar o show aqui e depois ir pra lá?". Ele: "Vai sim, o show vai ser bem mais tarde, dá tranqüilo".
Ele realmente era a tranqüilidade em pessoa. E assim deveríamos encarar a vida, com tranqüilidade, porque da morte não passa.
P.S.: O nosso fascínio macabro pela morte hoje em dia se estica até às nerdices, como no Profiles de Gente Morta do Orkut. Tem gente que acha isso um lance meio bizarro (com certa razão), mas acho que também passa por todas as incertezas que disse aqui. E a descrição da comunidade mostra isso. "Mas o que são esses rastros?? Seriam eles úteis?? Um conforto para quem fica?? Uma imortalidade virtual?? Bom, estamos aí para discutir... (...) Não é permitido brincadeiras de má intenção, bem como falta de respeito com os mortos."
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