"The name of the band is R.E.M." - Michael Stipe, 2001
Sabe aquele amigo que você não vê há uns anos? Que era um grande amigão naquela época, mas quando voltam a se falar, não é mais a mesma coisa? E não é que você não gosta mais dele, mas é que vocês mudaram e o período de ausência cria aquele vácuo que vocês não sabem preencher, daí falta assunto, falta intimidade, sei lá...
No início de 2001 eu ainda era estudante de jornalismo, o Napster e o formato mp3 eram "as" novidades, e minha vida sentimental estava esquisita (pra não entrar em detalhes). Musicalmente eu já tinha um gosto meio consolidado - acho que ainda gosto das mesmas coisas até hoje, só acrescentei coisas novas. E o show de rock internacional mais incrível que havia visto até então era o já longínquo Faith No More em 1991.
Agora, 2008, casei, mudei de cidade, blá blá blá... Amadureci? Acho que sim. Pensar vinte vezes antes de comprar um encadernado de HQs porque a grana pode ser útil na feira da semana é amadurecer?
Enfim. E tem o R.E.M. antes desses anos, durante e agora.
Senta que lá vem história...
Refletindo até aqui, o show do R.E.M. no Rock In Rio III, naquele lindo 13 de janeiro de 2001, não foi apenas (apenas??) o melhor show de rock que já tive o prazer de presenciar, mas foi um acontecimento que mudou minha vida.
Até 2001, eu nunca tive muita grana para viajar. Além de estar privado de conhecer outras cidades, eu me martirizava pelos shows internacionais que passavam pelo eixo Rio-SP. À medida que o adolescente aqui crescia e gostava mais e mais de rock, ia perdendo shows históricos no Brasil como Ramones, Nirvana, The Cure, Jimmy Page & Robert Plant. Não gosto nem de lembrar disso.
Em 1999/2000, eu já tinha a minha poupancinha dos primeiros estágios em jornalismo, que usava apenas para pequenos gastos mensais. Uma camiseta aqui, um CD ali. Mas aí veio o anúncio do Rock In Rio III. Os boatos falavam em Sting, Iron Maiden, Guns n' Roses. Blé, nada demais. Mas aí Roberto Medina anunciou que o R.E.M. viria para o primeiro show deles no Brasil.
Aí, meu amigo, como dizem na minha terra, "fudeu a tabaca de chola".
Não dá para dizer exatamente que o R.E.M. era/é a minha banda favorita, porque se eu tenho uma banda favorita (e eu acho esse papo de "a coisa favorita" meio limitante às vezes), seria Beatles. Mas certamente, dentre as bandas ainda em atividade, está no meu top 3 - quase sempre no primeiro lugar - de banda mais importante para o meu crescimento pessoal/musical/sentimental.
Como bilhões de outros, conheci R.E.M. por "Losing My Religion" e o Out Of Time. Mas eu teria parado aí, sabe? Isso na época era tão relevante quanto dizer que conheci o Jesus Jones quando ouvi "Right Here, Right Now". Mas o que não me avisaram é que a banda daquele hit tinha uma discografia espetacular bem antes do hit. E não é só isso! Na compra desta banda você [eu] ainda levará outros discos e músicas maravilhosos que viriam a seguir.
E assim a trilha sonora da minha adolescência seguiu: Automatic For The People quando entrei na Escola Técnica, New Adventures In Hi-Fi quando entrei na faculdade, Up quando estava na metade desta.
(Por que pulei o Monster? Não gosto desse disco, nem do recente Around The Sun. Pra mim são os dois únicos erros da discografia da banda)
E foi nesse embalo que resolvi gastar quase toda minha poupança naquela viagem de quatro dias ao Rio de Janeiro. Primeira viagem com dinheiro próprio, primeira viagem sozinho, primeira ida ao Rio, primeiro Rock in Rio, primeiro show do R.E.M.. Pode-se dizer que foi uma jornada espiritual.
A viagem em si eu fui sozinho, mas outros amigos recifenses foram também por sua conta. Só que eles tiveram o bom senso de chegar na véspera do show, de avião, e o papai aqui pegou um ônibus que chegou na cidade umas seis horas antes do show começar. E tome carreira para deixar as malas, almoçar, tomar banho e correr pra Cidade do Rock.
Não vou comentar os outros shows do dia, porque não vem ao caso. Um dia falo do show do Beck meio marromeno e o tédio no Foo Fighters. Porque todos eles foram só uma espera longa pro show da minha vida.
Michael Stipe entra no palco cantando "Finest Worksong". Uma das melhores músicas de um dos melhores discos do grupo, o Document. A segunda foi "What's The Frequency, Kenneth?", do disco que não gosto, o Monster, mas aí a empolgação era tamanha que cantei a música a plenos pulmões. Daí, salvo engano, veio "The Wake Up Bomb", do New Adventures In Hi-Fi, outra música foda de um disco foda.
Falei pra mim mesmo: se o show acabasse ali, já teria sido o melhor show de todos os tempos. Mas eu sabia que dali por diante ainda viria muito mais.
Não bastasse a empolgação da banda em tocar no Brasil pela primeira vez (com direito a Michael Stipe tomando caipirinha no palco), a boa vibe do público, enfim, tudo indo perfeito, o setlist escolhido foi impecável: só tinha música espetacular, abrangendo quase toda a discografia (só o EP Chronic Town, o Murmur e o Fables of the Reconstruction ficaram de fora). Foi mais ou menos assim, se minha memória não me trair (a ordem pode estar errada em alguns pontos):
"Finest Worksong"
"What's The Frequency, Kenneth?"
"The Wake Up Bomb"
"South Central Rain (I'm Sorry)"
"Fall on Me"
"Stand"
"The Lifting" (era inédita na época, o Reveal saiu meses depois)
"The Great Beyond"
"At My Most Beautiful"
"She Just Wants To Be" (também inédita na ocasião)
"The One I Love"
"Daysleeper"
"Find The River"
"Losing My Religion"
"Walk Unafraid"
"Man On The Moon"
Bis:
"Everybody Hurts"
"Pop Song 89"
"It's the End of the World as We Know It (And I Feel Fine)"
Depois desse show, pra mim era realmente o fim do mundo como o conhecemos. As torres caíram meses depois, mas eu me sentia bem. Sinto até hoje.
E agora?
Agora meus "amigos" retornam e não sei bem o que fazer com eles. Pra começar, eu já fiquei meio sentido de ter que pagar R$ 100 para revê-los. E se esta é a primeira impressão que ficou do reencontro, não é boa coisa.
Felizmente, eles retornam em alta: depois do fiasco do Around The Sun, o Accelerate os salvou: não é um Automatic, mas é sim um disco instigado e bem produzido, com ótimas músicas.
É claro que esse segundo show não vai ser o show da minha vida, porque nada vai apagar o impacto do que foi aquilo pra mim no Rio. Daí o que eu espero é pelo menos um inspirado set list com músicas "menores".
Se não for pedir muito, pessoal, gostaria de ouvir só umas três do Accelerate para deixarem espaço pras boas velharias. Queria ouvir "Leave", "I Believe" (ver post anterior), "E-Bow The Letter", "Country Feedback", "Endgame", "Begin The Begin", "Near Wild Heaven", "Drive", "Electrolite" e "Cuyahoga". Queria "Imitation of Life" e "All The Way To Reno (You're Gonna Be A Star)", as melhores músicas do Reveal, lançado só depois do Rock In Rio.
E queria muito, muito, ouvir coisas da trinca que ficou de fora do show de 2001 - Chronic Town/Murmur/Fables of the Reconstruction: "Feeling Gravity's Pull", "Radio Free Europe", "Talk About The Passion", "Perfect Circle", "Maps and Legends", "Driver 8", "Wolves, Lower", "Gardening at Night", "Carnival of Sorts (Box Cars)"...
E "Shiny Happy People"? Ok, não sonha... ;)
Whatever... Welcome back, guys!
This post goes out to the band I love.
Um comentário:
é meio foda ver os setlits deles hoje em dia e saber que não são tão bons quanto o daquele show no rock in Rio. Aquele setlist foi muito, muito foda. Mas enfim, é Michael, Mill, e buck e eu estarei lá,muito do feliz.
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